Editorial – Cimeira UE- África- Onde pára a nossa Democracia

Dezembro 9, 2007

Cerca de dez milhões de euros é quanto vai custar a Cimeira UE- África que reúne este fim-de-semana os principais líderes africanos em Portugal. Devo confessar que apesar de ser um adepto da diplomacia, desagrada-me profundamente saber que Portugal vai receber no seu território, com toda a pompa e circunstância, tão vis ditadores! Ainda mais sabendo que fora da cimeira irão ficar assuntos chave como os direitos humanos, nomeadamente a crise humanitária do Darfur. Em vez disso discutir-se-á assuntos de cariz económico e geoestratégico. A passividade dos grandes líderes europeus perante as grandes crises humanitárias é deveras preocupante. Entendem que não se devem incomodar com questões tão “banais” e fecham os olhos a essas realidades.
Os dez milhões de euros gastos devem ser criticáveis exactamente por servirem apenas os interesses dos grandes e não o daqueles que sofrem todos os dias vítimas de todo o tipo de tortura e perseguição. Fala-se sobre tudo menos sobre aquilo que se deve.
Faço questão de deixar aqui um pequeno currículo de algum dos líderes africanos que vêem até ao nosso país. Todos eles têm em comum o rastro de sangue e violência que espalham atrás de si:

ROBERT MUGABE – ZIMBABWE – Com 83 anos, é presidente desde 1986. O regime é acusado de detenções arbitrárias e tortura.

MUAMMAR KADHAFI – LÍBIA – De 65 anos, ocupa o poder desde 1969. Financiou o terrorismo. É acusado do desaparecimento de presos políticos.

MELES ZENAWI – ETIÓPIA – Tem 51 anos e é primeiro-ministro desde 1995. Polícia é acusada de tortura. Existem centenas de presos políticos.

PAUL BIYA – CAMARÕES – De 74 anos, é presidente desde 1982. É considerado um dos países mais corruptos do Mundo. Tortura é frequente.

OMAR AL-BASHIR – SUDÃO – De 63 anos, é presidente desde 1993. É considerado o pior ditador do Planeta. Extinguiu o Parlamento e os partidos.
Estas são algumas das personalidades que vão passear-se durante este fim-de-semana pelo nosso país. Isto além de me deixar com algumas náuseas deixa-me ao mesmo tempo envergonhado com a sociedade que temos. Onde estão os valores democráticos em que assentam as sociedades ocidentais? Estarão reflectidos nesta verdadeira “feira de vaidades “, onde reina a “diplomacia do copo e do croquete.”

Fábio Canceiro

Sub-director

Quando as estradas se tornam um campo de batalha

Novembro 11, 2007

Já não é de agora que as questões acerca da Segurança Rodoviária se levantam. Portugal é dos países europeus com maior taxa de sinistralidade rodoviária, embora continuem a afirmar que esta taxa tem vindo a decrescer.

Esta semana foi extremamente dramática nas estradas portuguesas. Não houve um único dia que notícias sobre acidentes e atropelamentos não fizessem parte do alinhamento do telejornal. Pessoalmente não tenho memória de uma semana tão trágica.

Na segunda-feira assistimos a um acidente na A23, que vitimou 16 pessoas e feriu mais de 20, foi desde a queda da ponte de Entre-Os-Rios o mais trágico ocorrido nas estradas portuguesas. Nesse mesmo dia, à noite, uma brutal colisão entre dois veículos em Albufeira na EN125 matou 2 pessoas e feriu uma com gravidade. Curiosamente, nesse mesmo dia, tinha tido lugar, da parte da manhã, uma iniciativa da Associação de Cidadãos Auto – Mobilizados junto à passadeira da Praça do Comércio, onde foram atropeladas 3 pessoas.

Na terça-feira somos “sacudidos” com mais um caso de atropelamento. Em Tires, duas crianças de 4 e 6 anos, acompanhadas pela avó são colhidas em plena passadeira. Depois de na semana passada ter ocorrido um caso similar na Praça do Comércio que vitimou mãe e filha.

Chegamos a quarta-feira e mais uma notícia trágica. Maria Amélia Guímaro, deputada da Assembleia Municipal da Figueira da Foz passeava com o marido na EN109 quando foi colhida por um Mercedes. Não resistiu aos ferimentos.

Na quinta-feira, o cenário é a IC2. Um pesado “esmaga” um automóvel. Uma vítima mortal a lamentar.

Devemos encarar estes cenários como verdadeiras catástrofes nacionais. Não podemos lavar as mãos e fingir que está tudo bem. Algo deve ser feito para acabar com a mortandade nas estradas portuguesas.

A raiz do problema até pode ser fácil de detectar. Em Portugal praticamente não existe civismo rodoviário. Sinais luminosos, e outros que tal não fazem qualquer sentido na cabeça dos condutores. A juntar a isto, a mediocridade de algumas estradas que se transformam em verdadeiros corredores da morte.

Que podemos fazer? Criar condições, desde cedo, para que os jovens condutores de amanhã sejam mais cívicos e respeitadores. Só desta forma poderemos contribuir para a paz na estrada.

Fábio Canceiro

Sub Director

Editorial: O Caso José Rodrigues dos Santos e a Democracia

Outubro 20, 2007

As divergências entre o jornalista José Rodrigues dos Santos e a RTP já se arrastam desde 2004. Na altura, José Rodrigues dos Santos era director de informação e, segundo o próprio, foi desautorizado pela administração da RTP na nomeação da correspondente em Madrid, Rosa Veloso. Foi o quanto bastou para que o pivô se demitisse do cargo de director de informação.

Estamos em 2007 e, 3 anos depois, este caso volta a ganhar novos contornos. A 7 de Outubro, o jornal Público publica uma entrevista com José Rodrigues dos Santos, onde este tece duras críticas à administração da televisão pública. Entre outras acusações o pivô diz que “a administração da RTP «passa recados» do poder político” e que ele ainda hoje está a pagar por se opor às pressões vindas da administração. Estas declarações caíram que nem uma “bomba” no seio da administração da RTP, que nos dias que se seguiram elaborou um comunicado a negar as acusações feitas por José Rodrigues dos Santos. No comunicado pode ler-se que a administração “repudia veemente, por serem falsas, as afirmações proferidas… às quais atribui a maior gravidade, uma vez que põe em causa a imagem da RTP, designadamente no que toca à informação prestada aos portugueses”. Além disto, acusam José Rodrigues dos Santos de estar a procurar protagonismo ao adoptar um discurso de vitimização.

Mais do que saber quem tem razão ou não, interessa dar enfoque aquele que me parece ser o verdadeiro cerne da questão: A possível promiscuidade latente entre o poder político e o jornalismo. As pressões exercidas pelo poder político sobre os critérios editoriais adoptados pela RTP, podem parecer invisíveis, mas à mínima suspeita vêm ao de cima antigos fantasmas que ensombram a frágil democracia em que vivemos desde o 25 de Abril de 1974. Ainda muito recentemente, aquando do caso da licenciatura de José Sócrates, vieram a público notícias que davam conta da existência de pressões exercidas por acessores do Primeiro-ministro. Foi quanto bastou para que se especulasse que a Democracia estava em perigo. O caso José Rodrigues dos Santos parece ter vindo reacender mais essa chama de desconfiança. E com isto, a credibilidade do jornalismo e dos jornalistas poderá estar em risco.

Fábio Canceiro

Sub-Director


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